Quando fomos confrontadas com a pergunta Contemporânea, por onde andas?, veio-nos imediatamente à cabeça uma série de imagens não síncronas, reunidas na obra Livros da Fotografia em Portugal: Da Revolução ao Presente.

A escolha das imagens, nesta obra, não é óbvia nem imediata, reunindo, lado a lado, tempos históricos distintos e espaços (ou geografias) que nos desorientam pela atenção excessiva tanto aos pormenores quanto a pendor dramático da composição: a risada de Angela Merkel, Passos Coelho e Sarkozy, a que se segue apenas o grande plano dos seus corpos sem cabeça, de fato e gravata (de Patrícia Almeida; a palavra “merda” espalhada por grafitis na Estrada de Benfica (de Alexandre Estrela); e os grandes planos das ceifeiras de Grândola durante a Reforma Agrária (de Jochen Moll).

As abordagens estéticas não menos nos confundem: fotografia de reportagem, poesia visual, encenações e montagens, design gráfico, murais. Os sujeitos são múltiplos: pormenores da cidade, partes do corpo frequentemente não erotizadas, detalhes da cultura pop, manuais escolares.

Nesta conversa com os editores desta obra, interessa-nos debater os modos como o processo de investigação, claramente cronológico, resultou numa organização temática não cronológica, em que passado e presente coexistem, abrindo-se ambos ao campo da ficção. Interessa-nos igualmente discutir o próprio formato do livro de fotografia e do catálogo antológico como “objecto que fica para o futuro”, inquirindo o seu peso na própria construção historiográfica do campo da fotografia no país.