CLUBE DE LEITURA DO COMUM – OS ANÉIS DE SATURNO, W. G. SEBALD

A forma por vezes acompanha a substância. Caminhamos por entre destroços, fragmentos de um passado violento – uma história natural da destruição, tecida por um fio de memória que lhes dá significado e significância. Uma antiga lua de Saturno, demasiado próxima do planeta, terá sido desintegrada pelas forças de maré, formando os anéis de Saturno; para obter um fio de seda contínuo e intacto, a Bombyx mori tem de morrer, os seus casulos são fervidos ou cozidos quando a lagarta ainda se encontra na fase de pupa; a Bélgica é feia, e isso, talvez se deva à desenfreada, macabra exploração do Congo promovida por Leopoldo II. Embora por vezes tétrico, este conhecimento acrescenta significado ao mundo – mesmo quando não é confortável. E se esta é a substância do livro, a forma segue-a (ou talvez a preceda): digressão e enumeração. Talvez pudesse ter sido escrito num único parágrafo, mas o autor terá já passado essa ingenuidade beatnik, que terá levado Kerouac a datilografar ‘On the road’ num único rolo de papel contínuo, cuja mancha de texto se assemelhava à dita estrada. Partindo do mundo físico, a tal romagem inglesa pelos caminhos de Suffolk, Sebald tece um fio contínuo e encadeado, em associação livre: frases longas, cadenciadas por virgulas, numa enumeração melancólica do mundo; parágrafos de escafandrista, abandonando-se em queda livre, até ao limite do não retorno, em órbitas parabólicas que afinal ligam. E parece ser essa a forma como vê a função da escrita, como ato de ligação, um enlace da memória, e de transmutação: o que em tudo acompanha a metáfora maior dos bichos-da-seda.