Diz-se que o sentido de humor é um sinal de inteligência. A capacidade de olhar para o mundo, mesmo nas mais adversas circunstâncias, e encontrar o que em nós e nos outros há de risível, é por vezes a única alternativa ao colapso. A obra de Franz Kafka (incidentalmente compatriota de Bohumil Hrabal) tantas vezes vista como um pináculo da angústia existencial, também pode ser olhada do ponto de vista humorístico. Trata-se, é certo, de um humor subterrâneo, que se infiltra lentamente, mas que acaba por se revelar sob o peso do absurdo – reza a história, que o próprio tinha ataques de riso enquanto lia trechos aos amigos. A estratégia de Bohumil é diferente. Os seus personagens são declaradamente tolos, mas ocasionalmente, inesperadamente, profundos.
A ação desenrola-se na Checoslováquia durante a Segunda Grande Guerra, sob ocupação alemã, onde os habitantes tiram um melhor partido possível da situação: a fuselagem da asa de um avião abatido transforma-se rapidamente em material de construção para coelheiras e galinheiros ou em belos protetores de pernas para motocicletas. O “senhor chefe da estação” – assim sempre designado, por extenso – aspirando a uma promoção iminente, vê o seu objetivo constantemente sabotado, e resigna-se a gritar a sua má sorte para o poço de ventilação.
Quem não percebe o quão risíveis somos, não percebe nada. Hrabal percebeu. Morreu com 82 anos, após cair da janela do hospital Bulovka, onde estava internado. Talvez estivesse a tentar alimentar os pombos, talvez se tivesse suicidado – não se sabe. Esta terá sido a derradeira cena hrabaliana em que a ambiguidade entre vontade e acidente, entre o sério e o cómico, é, na sua irresolução, o próprio reagente de construção literária